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1.11.15

Dificuldades gerais da psicologia contemporânea para compreender a natureza do amor

A psicologia atual, tanto em sua vertente experimental, como em sua vertente clínica e outras, surge no fim do século XIX de uma matriz materialista, pelo qual se designou, com razão, como uma psicologia sem alma. Sem alma foi a psicologia experimental de Wundt, foram as psicologias funcionalistas americanas, a reflexologia e o conducionismo e, também a psicanálise. Desde uma perspectiva influenciada pelo positivismo, e antes pela crítica kantiana da psicologia racional, essas formas de psicologia consideram a alma em geral como um princípio de explicação da mente e da conduta humana arcaica e mítica. O homem não seria outra coisa que matéria organizada que não se distinguiria qualitativamente de outras formas de organização da matéria. A matéria é princípio potencial, não real e determinante, receptora de perfeição, mas imperfeita por natureza. Todas as variedades de materialismo são filosofias da potência e não do ato, e, nessa medida, são incapazes de compreender a perfeição e o bem. Por isso, para a psicologia materialista a perfeição é uma espécie de utopia, quase que diríamos, de anomalia. O normal seria a inércia e a imperfeição.

Este materialismo, que se fundava a psicologia clássica do fim do século XIX e princípio do século XX, era em geral mecanicista, mas sobretudo era um biologismo evolucionista. O ser humano, mera organização da matéria sem dimensão transcendente, teria surgido da mutação casual da matéria. Ao ser esta mutação casual, e não dirigida inteligentemente, seu resultado não seria um bem, porque o bem é algo apetecido, querido. O homem não seria alguém querido, nem muito menos, querido por si mesmo. Para ser querido por si mesmo, deveria ser algo dotado de intimidade, ou seja, alguém dotado da capacidade de voltar sobre si mesmo por reflexão e, por tanto, alguém que pode possuir o bem de modo estável. Se o homem não é um bem, nem capaz de possuir o bem, se não foi querido inteligente e pessoalmente, tampouco é alguém que pode ser querido por si mesmo, ou seja, não é suscetível de amor de amizade.

O ponto de vista biológico, aliás, sustentado por todas essas correntes, concebe o ser humano como um mero ser da natureza, imerso em seu meio ambiente, em intercâmbio com este com a finalidade de adaptar-se. Os organismos biológicos implicam uma pluralidade de componentes em equilíbrio. Quanto esse equilíbrio se rompe, surgem as necessidades que se traduzem na consciência como impulso para a superação do desprazer e para a realização do prazer. Isto leva a relação com o meio a fim de obter o necessário para restaurar o equilíbrio interno e o equilíbrio com o meio. Nesta perspectiva, todo ato mental e toda conduta exterior se explicariam em última instância como movimento para a compensação de uma privação, de uma carência ou debilidade. Ou seja, todo amor é amor de concupiscência. Não há lugar para a ação que brota da perfeição, do bem difusível de si (porque tal bem não existiria), da doação desinteressada. Todo amor seria egoísta, possessivo, voraz, mesquinho. Não pode haver amizade.

Este materialismo biologista e evolucionista, elimina ou reduz as faculdades superiores do homem a meros instrumentos ordenados a adaptação. A inteligência não seria uma faculdade pela qual o ser humano se ordena a verdade como seu bem, senão o homem de todas as ações adaptativas que supõem a resolução de problemas não previstos por instintos. Deste modo, o verdadeiro dá lugar ao útil. O pragmatismo é um pressuposto consciente ou inconsciente em quase todas estas correntes. Também o construtivismo se apoia sobre estes pressupostos, como se vê tão claramente em seu precursor, Jean Piaget. O conhecimento seria a construção de ações que são esquema de transformação da realidade. Para essa concepção, conhecer é transformar a realidade, manipulá-la. No fundo, não há verdadeira cognição. Se não há cognição, não há contemplação do bem. Sem contemplação do bem, não há amizade em seu sentido pleno, senão concupiscência, amizade deleitável e amizade útil. Mas não amizade bela, não esse amor pelo qual se ama a pessoa como tal, como outro eu, como uma alma em dois corpos.

Ainda mais deteriorada que a inteligência são as concepções de vontade, o apetite racional despertado pela cognição da verdade. Sem vontade, não há amor de amizade, só pode haver amor de concupiscência, não só no sentido do amor que é para alguém, mas amor como ato do apetite concupiscível, amor do bem deleitável, e derivadamente do que é meio para obtenção do bem deleitável. Não é, portanto, estranha a atitude geral de desconfiança da psicologia contemporânea para a amizade. É que, neste contexto teórico, as relações humanas não podem ser outra coisa que mutua instrumentalização: os pais usariam seus filhos para prolongar seu narcisismo; namorados se usariam mutuamente para obterem satisfação física ou controle moral sobre os outros; o psicoterapeuta não poderia considerar-se amigo de seu paciente, porque poderia ficar intrelaçado nos conflitos do paciente. Isto é assim porque em todo amor nós estaríamos buscando a nós mesmos, e não iria dirigido ao outro conservando sua própria personalidade e bem.

Não é estranho, por tudo isto, que, falando muito sobre o amor, o desejo, as relações objetais ou interpessoais, as influências familiares e sociais sobre a personalidade, etc., a psicologia contemporânea em geral tem negligenciado quase completamente o tema da amizade ou a relegou ao plano da quimera. Evidentemente, nenhum espaço se dá aqui para a ordem sobrenatural e o amor de caridade.

Por Dr. Martín Federico Echavarría

23.6.15

Sexólogos mirins

Em praticamente tudo o que leio e ouço a respeito de sexo, desejo e amor, reina a mais tosca e pueril indistinção entre as experiências mais diversas associadas a esses termos, quase sempre tomados como sinônimos.

No seu nível mais imediato e fisiológico, o desejo é um fenômeno puramente interno, produto da química hormonal sem objeto definido e que, por isso mesmo, pode ser em seguida projetado sobre qualquer objeto real ou imaginário. É uma pura urgência fisiológica, um "desejo de gozar" que aparecesse sem a necessidade de nenhum excitante externo e pode ser  satisfeito por mera fricção mecânica da genitália - masculina ou feminina.

Bem diferente é o desejo despertado pela visão direta ou indireta de um objeto, de um corpo desejável. Invariavelmente o fator excitante é aí algum traço sexual secundário ao qual o sujeito seja particularmente sensível: peitos, traseiros, pernas, olhos, etc. Este é o nível que corresponde tecnicamente à noção escolástica da concupiscentia. Comentário de garotões de praia ante as transeuntes que lhes parecem gostosas são uma enciclopédia das expressões verbais que manifestam esse tipo de desejo.

Num terceiro nível o desejo não é despertado por nenhuma característica física mais saliente, mas por uma impressão geral indefinida e não-localizada de beleza ou charme, quase uma aura mágica em torno do objeto desejado.

Logo acima disso vem a paixão, o enamoramento, o coup de foudre que torna o objeto uma presença obsessiva e insubstituível na mente do apaixonado. Esta emoção é repleta de ambiguidades. Traz inevitavelmente consigo a ansiedade, o medo da rejeição, e aciona um conjunto de mecanismos psicológicos de defesa contra a frustração possível.

Vencidas essas ambiguidades, o enamoramento pode se consolidar num sonho conjugal, o anseio de ter a pessoa amada ao nosso lado para sempre. Neste nível o desejo assume tons de um valor moral, destinado a manifestar-se na aceitação comum de sacrifícios para o benef'ício mútuo, para a criação de uma família, para a aceitação de responsabilidades sociais, etc. A resistência maior ou menor às dificuldades pode levar a resultados que vão desde a criação de uma família estável até uma variedade de desastres conjugais.

Só no topo da experiência conjugal com todas as suas ambiguidades é que pode, no entanto, surgir o verdadeiro e genuíno amor, no sentido pleno da palavra, que é o impulso firme, constante e irrevogável de tudo sacrificar pelo bem da pessoa amada, de perdoar sempre e incondicionalmente os seus defeitos e pecados, de protegê-la de todo mal e de toda tristeza, ainda que com risco da nossa própria vida, e de conservá-la ao nosso lado como o nosso bem mais precioso, não só nesta existência terrestre, mas por toda a eternidade.

Cada um desses níveis engloba e transcende o anterior, e só quem passa à fase seguinte compreende o que estava em jogo na anterior.

É evidente que só quem percorreu o trajeto inteiro está habilitado a formar uma visão abrangente e objetiva da experiência sexual, que os outros só enxergam de maneira parcial e subjetivista - não raro solipsista - determinada pela sua fixação numa etapa que se recusa a passar.

Infelizmente, este último é o caso da maioria dos "formadores de opinião", universitários ou midiáticos, que se oferecem gentilmente para modelar a vida sexual alheia segundo a medida do seu próprio subdesenvolvimento existencial.

Muitos não se contentam com isso e fazem da sua própria consciência atrofiada um critério de moralidade com base no qual julgam e condenam o que não compreendem. São esses que denomino "sexólogos mirins": almas atrofiadas que querem ajustar a vida sexual alheia ao molde da sua própria pequenez.

Por Olavo de Carvalho

17.4.15

Sexualidade

"Que todos respeitem o matrimônio e não desonrem o leito nupcial, pois Deus julgará os libertinos e adúlteros" (Hebreus 13:4).

A tese aqui defendida é exigente, porém acredita-se que seja a única correta. Existem muitas formas de combinar as peças que compõe a sexualidade humana, porém apenas uma delas é capaz de humanizar o ser humano.

Elevar e integrar o sexo com a inteligência, vontade e sentimentos é humanizá-lo conforme a integralidade do homem que engloba não apenas sua natureza corpórea, mas também espiritual. Isso só é possível  quando todos os elementos que compõe a sexualidade humana estão presentes de forma harmônica. A combinação dos fatores; diferenciação, complementariedade, fecundidade e amor; só é possível dentro da família tradicional de fundação matrimonial. Querendo ou não, a natureza humana é imutável nesse aspecto e de qualquer outra forma perde-se tempo.

Apesar do mundo caminhar a passos largos rumo a normalização do homossexualismo, da pedofilia e da aceitação plena do sexo despojado do eros e da fecundidade; a família tradicional continua sendo o projeto vital das pessoas de boa vontade. A tentativa de equipará-la à diversas outras agremiações existentes é decepcionante, entre outros motivos, por não se coadunar com o anseio humano de transcendência e infinitude.

O casal é um verdadeiro agente de transcendência. Carrega dentro de sua própria natureza um poder criador que só é possível como obra de um Absoluto ou participação Nele. É verdadeiramente surpreendente que de duas intimidades surja uma terceira jamais antes criada, irrepetível. Todo filho, é pois, um dom, um mistério e uma surpresa. A sacralidade do sexo está, com efeito, intimamente ligada à sacralidade da vida. Deixa de ser, portanto, meramente um ato biológico, para ser um verdadeiro excercício de transcendência, pois é uma real participação na força criadora. Deveria ser um verdadeiro escândalo que não nos admiremos frente uma realidade que clama forças superiores e divinas. A negação desse deslumbramento dá origem a uma explicação fria, positivista e incoerente para o surgimento da vida; pois a matéria não é condição de possibilidade para o surgimento de uma nova vida.

A relação sexual está, portanto, naturalmente ordenada para a procriação da mesma forma que o ato de alimentar-se está para a nutrição. Despojar artificialmente o sexo da fecundidade é, pois, como comer e vomitar. Atua-se hoje desse modo porque vivemos em uma cultura que vê o filho como uma cruz, uma desgraça e agindo dessa forma torna-se impossível de unir o sexo ao eros, uma vez que separado da fecundidade.

O amor tende naturalmente a ser fecundo e o eros implica doação total e absoluta; que não pode ser manifesta quando há falta de confiança e reservas internas à ideia de uma vida compartilhada com o outro. No eros encontra-se de repente uma pessoa em particular que é bela e amável como nenhuma outra e que precisamente por isso, torna-se alguém sem a qual a nossa felicidade se apresenta como impossível. O enamorado quer a enamorada por si mesma e não pelo prazer que lhe possa proporcionar. A atração física não é primária. O eros é, pois, uma forma de relação interpessoal na qual a sexualidade humana adquire seu sentido. O eros atua, portanto, como amor-dádiva-necessidade; uma afirmação do outro que tende para a união com ele. No eros uma pessoa concreta, única e irrepetível se converte no meu projeto pessoal de vida.

Quem está no eros prefere partilhar o infortúnio com o ser amado do que tentar ser feliz de qualquer outra maneira. Por isso que o sexo vivenciado sem o eros é como um sorriso falso, uma careta, uma máscara. Da mesma forma que o sorriso deveria representar a alegria; a entrega corporal deveria representar uma entrega total e não apenas a satisfação de um instinto. Sem o eros ter-se-ão, portanto, experiências sensíveis, mas não interiores.

O eros apesar de nunca perder a atitude contemplativa da pessoa amada, deve, no entanto, converter-se em amor como tarefa. O sexo está para o amor e não o amor para o sexo. Somente dentro do amor conjugal ele deixa de ser tirânico, porque não pode produzir por si mesmo diversos elementos sem o qual o eros se extingue. Por isso, que a vida sexual levada a sério facilmente decepciona, deve ser portanto desinteressada, porém não banalizada, para não correr o risco de vir a ser melancólica.

Créditos ao Fides Quaerens Intellectum
 renata massa